Quinta-feira, Outubro 8

Há pessoas que farão sempre parte das nossas vidas, mesmo que já não façam.

Há pessoas assim na minha vida, de quem me lembro aos pedaços, em momentos desprevenidos. Hoje foi a voz da minha professora de português do 9ºano. Nem sequer gostava dela, mas o tom nasalado e estridente imprimiu-se na memória traumática dos meus tímpanos.

E há pessoas que me surgem, reais e concretas, como se estivessem ali. Ao alcance da mão.

Entrar na escola todos os dias é procurar a Guida. A Marta. A Ana. Procurá-las no chão dos corredores à porta das salas, onde nos sentávamos. No bar velho, com um queque de noz na mão. Ou no Decomur, o café com o pior nome do mundo. É ir a Carlos Alberto, pedir meia Turim e ficar à espera que uma delas peça a outra meia.

E não consigo entrar no laboratório, ligar o microscópio e olhar para as células sem me lembrar das mitocôndrias da Guida. A Guida, hoje uma (quase) neurologista, feliz e a sorrir porque adorava mitocôndrias. E a Marta, a entrar sala adentro, atrasada e despenteada. A Marta que é uma (quase) parrecologista e que não anda, hoje, com um cabelo fora do sítio.

Da Ana não sei nada. Só que é uma (quase) pediatra. A Ana, que um dia sonhou ser neurocirurgiã. Que vivia no bloco. A Ana, que foi difícil de conquistar, mas que ficou cá dentro. E que saiu da minha vida, mais facilmente do que entrou.

Entrar na escola todos os dias é entrar com elas. É olhar à minha volta e não me sentir em casa sem elas. É gostar muito delas, todos os dias.

Terça-feira, Setembro 22

o primeiro dia

O átrio estava cheio de gente e as inscrições ainda nem tinham começado. Por todo o lado havia pais e mães, quase tantos como alunos novos. Estava à espera de ver gente trajada, a receber os caloiros. Mas não havia ninguém.

Tirei uma senha e sentei-me, de livro aberto mas com os olhos aqui e ali, a ver toda aquela gente nova a chegar à minha escola. Os meus colegas. Aqueles com quem terei aulas, trabalhos de grupo, seis anos de vida em comum. E são tão meninos. Tão pequenos e alguns com um ar tão assustado.

Estava lá a Inês. A Inês, que há poucos meses me contou que o verdadeiro sonho era estudar Matemática. Mas que ninguém, ninguém para além da mãe, compreendia esse sonho. Que toda a gente lhe dizia que com aquela média devia era ir para Medicina. Aí sim, está o emprego. As oportunidades. O reconhecimento. Razões, umas válidas, a maioria idiota, para desistir de um sonho. Tão nova, ainda.

A Inês tinha consigo a mãe e a irmã. A mãe preocupada com a praxe. Que nem se atrevessem a obrigar a filha a beber. A rebolar na lama, como fazem aqueles que se viu no telejornal. Falei com ela. Que a praxe ali era bem organizada. Decente. Que "de quatro, caloiro!", aos berros e com cara de mau, há em todo o lado. Que faz parte, se se quiser fazer parte. Mas que há passeios no Douro, visitas às caves, apresentações à cidade que os recebe. Que há união.

Digo isto sem saber que o sentia tanto. Para tranquilizar aquela mãe. E percebo. Foi lá que fui praxada pela primeira vez. Foi lá que me fizeram beber um shot de óleo de fígado de bacalhau, ficar de quatro num anfiteatro sem espaço para respirar. Mas foi lá, também, que nos ensinaram que "médico que só sabe de medicina, nem medicina sabe." Que a união era importante e que se um falhava pagavam todos. Que "no Porto nascem amores de capas negras vestidas." O hino que ainda hoje, 10 anos depois, sei de cor(ação). Fui baptizada nos Leões, pelo Miguel, o meu padrinho. E voltei, 10 anos depois.

Já há 10 anos fui sozinha para as matrículas. E já há 10 anos achei ridícula a ideia de levar os pais. Afinal, a independência começa ali. E não me lembrei, na altura, que havia gente a vir de muito longe. A ter de ir procurar casa, depois das matrículas. Hoje, 10 anos depois, sorrio quando vejo pais e mães mais nervosos do que os filhos. Mais ansiosos.

10 anos depois a desorganização continua. Saí de lá sem me matricular. Centenas de pessoas e uma ineficiência crónica dos serviços. Terei de voltar. Amanhã será outro dia.

Segunda-feira, Setembro 21

A uma semana do início das aulas ainda me parece mentira. Porque tirando as horas perdidas nas confusões informáticas e nas filas intermináveis para a secretaria, a minha vida (ainda) não mudou. Continuo por casa, em arrumações, em receitas, em roupa descontraída.

Deve ajudar o facto de conhecer a nova casa, a zona, o percurso diário, algumas cadeiras. Os 28 anos também são mais pacientes do que os 18. Menos ansiosos.

Falta uma semana. Para as aulas teóricas com 150 caras desconhecidas. Para os almoços vegetarianos no hare-krishna. Para as viagens de comboio. O despertador demasiado cedo.


Falta uma semana para a minha vida (re)começar.

Sexta-feira, Setembro 11

Entrei.


(e ainda não acredito)

Quinta-feira, Junho 18

Ouço aqui e ali as notícias, amigos grávidos, amigos pais, crianças pequeninas que ainda nos cabem na cova de um braço. E sinto-me como o James Belushi naquele filme, presa num eterno 12ºano, sem conseguir sair daqui, sem conseguir deixar os exames, o estudo, os sonhos impossíveis.

E nestas alturas apetece mais do que nunca andar para a frente. Sair disto, desistir, mudar de vida. Nem que fosse para ficar em casa, ter dois ou três filhos e fazer disso a minha vida a tempo inteiro. Não é a vida que eu quero, não é a vida que me fará feliz. Mas isto também não.

(respiro fundo. só mais uma vez. só mais uns meses disto, de frio na barriga e nó na garganta e de angústias de adolescente. só mais uns meses e vai. ou racha.)

Quarta-feira, Maio 13

Às vezes pergunto-me se as tempestades não amainarão para poderem voltar com mais força. Para nos poderem apanhar desprevenidos, a achar que desta já nos safámos e afinal parece que não.


(ainda cá estamos. pele, osso, frio na alma. ainda cá estamos.)

Segunda-feira, Maio 11

E depois da bonança a tempestade. A bonança que dura cada vez menos, que é cada vez mais fugaz e difícil. A tempestade cada vez mais presente, dura, dura, duradoura.

O corpo sempre frio e cansado das conversas repetidas, as escadas do hall marcadas na alma como passos incertos na direcção de nada. A solidão da casa vazia. A solidão mais dura da antecipação da casa vazia. A casa vazia sempre no horizonte. Amanhã, na próxima semana, todas as semanas daqui até ao fim.

O fim. Das coisas boas, da sala e da varanda, do futuro que desenhamos para nós. Mas o fim das ausências, das escadas do hall marcadas a ferro dentro de mim. O fim da solidão mais dura, que é a de estar só mesmo quando estás aqui.