Quinta-feira, Junho 18

Ouço aqui e ali as notícias, amigos grávidos, amigos pais, crianças pequeninas que ainda nos cabem na cova de um braço. E sinto-me como o James Belushi naquele filme, presa num eterno 12ºano, sem conseguir sair daqui, sem conseguir deixar os exames, o estudo, os sonhos impossíveis.

E nestas alturas apetece mais do que nunca andar para a frente. Sair disto, desistir, mudar de vida. Nem que fosse para ficar em casa, ter dois ou três filhos e fazer disso a minha vida a tempo inteiro. Não é a vida que eu quero, não é a vida que me fará feliz. Mas isto também não.

(respiro fundo. só mais uma vez. só mais uns meses disto, de frio na barriga e nó na garganta e de angústias de adolescente. só mais uns meses e vai. ou racha.)

Quarta-feira, Maio 13

Às vezes pergunto-me se as tempestades não amainarão para poderem voltar com mais força. Para nos poderem apanhar desprevenidos, a achar que desta já nos safámos e afinal parece que não.


(ainda cá estamos. pele, osso, frio na alma. ainda cá estamos.)

Segunda-feira, Maio 11

E depois da bonança a tempestade. A bonança que dura cada vez menos, que é cada vez mais fugaz e difícil. A tempestade cada vez mais presente, dura, dura, duradoura.

O corpo sempre frio e cansado das conversas repetidas, as escadas do hall marcadas na alma como passos incertos na direcção de nada. A solidão da casa vazia. A solidão mais dura da antecipação da casa vazia. A casa vazia sempre no horizonte. Amanhã, na próxima semana, todas as semanas daqui até ao fim.

O fim. Das coisas boas, da sala e da varanda, do futuro que desenhamos para nós. Mas o fim das ausências, das escadas do hall marcadas a ferro dentro de mim. O fim da solidão mais dura, que é a de estar só mesmo quando estás aqui.

Terça-feira, Maio 5

Sentamo-nos no chão frio do hall, nas escadas, e falamos de coisas duras. É difícil ter conversas destas em sítios felizes, no sofá da sala, na varanda, nos sítios que nos vêem sorrir. É como se não pudessemos voltar a sorrir nesses sítios, depois das conversas difíceis.

No sofá, na varanda, falamos das coisas boas. Do que queremos fazer um dia, do que queremos fazer já. Do podermos ou não fazê-lo, um dia ou já. Escolhemos os sonhos possíveis e guardamos os outros. Fazemos escolhas todos os dias.

Construimo-nos nestes momentos, os da sala e os das escadas frias. De avanços e recuos nos vamos fazendo e decidindo. E ambos os momentos acabam da mesma forma. Num abraço e na certeza de que, mesmo com horas nas escadas, o corpo frio, a alma cansada, ainda há sonhos possíveis a viver a dois.

Sábado, Abril 25




Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo



Sophia de Mello Breyner

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Quarta-feira, Abril 8

Numa daquelas linhas de pensamento sem nexo nem direcção, lembrei-me do Crash, filme que me marcou muito sobretudo por causa desta frase:

It's the sense of touch. (...) We're always behind this metal and glass. I think we miss that touch so much, that we crash into each other, just so we can feel something.

Hoje, mais do que nunca, somos seres carentes de contacto. Estamos ligados ao mundo 24 horas por dia mas não conhecemos os nossos vizinhos. Compramos produtos vindos da China, do Brasil, da Austrália mas não conhecemos o senhor que nos vende a fruta.

E estamos tão carentes de sentir a ligação ao outro que, na falta de mais informação, gostamos automaticamente mais daqueles com quem partilhamos coisas tão insignificantes como o signo, o clube, o banco. Esta busca no outro de pontos que sejam pontes, que nos liguem a alguém.

Qualquer dia começamos mesmo a chocar uns contra os outros, na busca desesperada de sentirmos alguma coisa.

Terça-feira, Abril 7

há mais vida na minha vida

A minha vida não é só feita de mim. É feita também da vida de quem partilha comigo a minha vida. E desde sexta há mais vida na minha vida.

Sexta, dia 03 de Abril, nasceu o A. E eu soube que a minha vida também tinha mudado para sempre.

A mãe do A. é das minhas amigas mais antigas. Conheci-a num tempo em que estava quase tudo por viver e em que as nossas vidas se abriam aos nossos olhos. Construímos coisas juntas, demos vida a projectos que vimos subir ao palco e criámos risos e lágrimas no princípio e no fim das coisas.

Hoje ainda construímos coisas juntas. Mas partilhamos mais. Partilhamos planos concretos de um futuro já tangível, sonhos que nos caem aos pés, outros que levantamos, a custo, do chão. Partilhamos a vida mais vida do dia-a-dia, aquela menos grandiosa, menos feliz e menos dolorosa, mas que é mais presente e mais constante.

A vida dela mudou para sempre na sexta-feira. e a minha com a dela, por ela ser tão parte da minha vida. Hoje há mais vida na minha vida.

Bem vindo, A.!