Há pessoas que farão sempre parte das nossas vidas, mesmo que já não façam.
Há pessoas assim na minha vida, de quem me lembro aos pedaços, em momentos desprevenidos. Hoje foi a voz da minha professora de português do 9ºano. Nem sequer gostava dela, mas o tom nasalado e estridente imprimiu-se na memória traumática dos meus tímpanos.
E há pessoas que me surgem, reais e concretas, como se estivessem ali. Ao alcance da mão.
Entrar na escola todos os dias é procurar a Guida. A Marta. A Ana. Procurá-las no chão dos corredores à porta das salas, onde nos sentávamos. No bar velho, com um queque de noz na mão. Ou no Decomur, o café com o pior nome do mundo. É ir a Carlos Alberto, pedir meia Turim e ficar à espera que uma delas peça a outra meia.
E não consigo entrar no laboratório, ligar o microscópio e olhar para as células sem me lembrar das mitocôndrias da Guida. A Guida, hoje uma (quase) neurologista, feliz e a sorrir porque adorava mitocôndrias. E a Marta, a entrar sala adentro, atrasada e despenteada. A Marta que é uma (quase) parrecologista e que não anda, hoje, com um cabelo fora do sítio.
Da Ana não sei nada. Só que é uma (quase) pediatra. A Ana, que um dia sonhou ser neurocirurgiã. Que vivia no bloco. A Ana, que foi difícil de conquistar, mas que ficou cá dentro. E que saiu da minha vida, mais facilmente do que entrou.
Entrar na escola todos os dias é entrar com elas. É olhar à minha volta e não me sentir em casa sem elas. É gostar muito delas, todos os dias.